segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Um momento eterno!

Ontem domingo, tive um momento eterno com os meus irmãos, num local onde decidimos devolver à Natureza as cinzas da nossa mãe.

Escolhemos previamente esse local, de um dos muitos que a nossa mãe gostava e onde se sentiu feliz e depois fizémos o levantamento das condições para procedermos a esse acto de devolução à Natureza da nossa progenitora.

O pote ecológico onde se encontravam as cinzas da nossa mãe foi guardado na minha casa, até ao dia de ontem e foi transportado por mim, na companhia do meu irmão e da minha irmã.

O dia estava bonito, o mar nem muito bravo, nem muito calmo e o Sol, manifestava-se no alto do horizonte. Conseguimos localizar um local onde ninguém nos via e onde estávamos somente nós os três, o mar e o Sol.

Num momento eterno, decidimos levar ao reencontro com a Natureza as cinzas da nossa querida mãe e nesse momento, senti que o resto do cordão umbilical que se tinha mantido ainda após o seu falecimento, finalmente tinha sido cortado e passava a ser eu e a Vida e a Morte, mais as relações fraternas e afectivas com os meus irmãos, com os amigos do coração, com os amores que a Vida me trouxe e irá trazer.

Desde criança que a morte, não é algo que me faça impressão, mas sim uma certeza da Vida, para a qual caminhamos ao longo desta. Talvez o facto de desde muito cedo ter tido contacto com a morte, devido ao falecimento de pessoas de família ou amigos desta e à relativização da morte que o meu pai fazia, pelo facto de estudar medicina, tenha me dado uma visão mais leve e descomplicada desta passagem para um outro lado.

Todo o peso que a morte tem na nossa Cultura ocidental, penso que se deve não só ao aspecto cultural, mas também ao tabú que se gera à volta da morte e consequentemente ao medo desta, por ser o desconhecido e por isso fica algo pesado e de difícil abordagem pela maioria das pessoas.

Se não falarmos deste assunto, ainda fica mais difícil e quando ocorrer a morte de um amigo ou familiar, porque vai acontecer um dia, fica mais complicado viver e prepararmo-nos para a nossa própria morte. Não precisamos de ser mórbidos ou relatar factos chocantes, mas é importante abordar esta temática várias vezes até se tornar mais confortável para nós.

Com o evoluir do tempo, com o aumento dos anos de vida, acabamos por nos vermos a pensar neste assunto algumas vezes e a pensar na melhor preparação para deixar tudo resolvido para quem cá fica e outros temas que jamais julgaríamos alguma vez pensar.

Um dia a morte esteve perto de mim, quando tinha 40 anos e desde essa altura, prometi não me esquecer dessa situação e reflectir ainda mais sobre ela de forma a poder viver ainda melhor e de uma maneira mais leve e feliz.

Falar sobre a Vida sem falar sobre a Morte, acaba por ser um não filosofar, por isso havemos de voltar a falar mais sobre a morte, com pontos de vista e perspectivas mais filosóficas.

Nesse sentido deixo para reflectir alguns dos atributos dados a Shiva, Criador do Yôga, o Destruidor ou Renovador, ou seja, destrói para voltar a criar e assim sucessivamente e isso não é mais do que o ciclo da vida e da morte, o ciclo da Natureza.

Até uma próxima conversa sobre vida e morte!

António Pereira

3 comentários:

Andrea Miguel disse...

Querido professor,

abordou um tema que de facto consitui um tabu nas nossas sociedades ocidentais e que para mim, em especial, é deveras difícil. Obrigada pela sua coragem! Gostava que pudessemos conversar sobre o tema mais vezes.

Beijinhos,



Andrea

Secretária disse...

António gostei muito destas tuas palavras.
Quando somos novos não pensamos muito na morte, é uma coisa que ainda vem muito lá ao longe... Mas, há medida que vamos vivendo começamos a perceber que ela mora ao nosso lado e está lá de mãos dadas com a vida.
O ano passado perdi 2 grandes amigos, um logo no início do ano a 26 de Janeiro a nossa querida Renata e outro a 15 de Dezembro, o meu querido amigo Luís Ferreira que era como um irmão para mim.
No entanto e como a vida é sempre generosa presenteou-me nesse mesmo ano, já no finalzinho a dia 20 de Dezembro, com o deslumbre do nascimento da minha neta Diana.
E, como muito bem disseste, assim é o ciclo da vida e da natureza representados por Shiva.
É bom podermos falar destas coisas pois excomungamos medos e fantasmas, que não fazem sentido existir.
Um grande abraço para ti.
Zélia

paula milani disse...

Falar da Vida sem falar da Morte acaba por ser um não filosofar...
Eu nunca tinha pensado nisso... Faz todo o sentido!
Obrigada Professor, por mais este conhecimento!
Paula Milani