quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Crónica de um dia cinzento


Naquele dia, tinha acordado atormentado. Não sabia sobre o quê, mas sentia-se assim. Algo no seu íntimo o revolvia, como uma tempestade em formação para se concretizar numa explosão. Não sabia o que o atormentava e que explosão iria ser essa, se realmente ocorresse.

Pensamentos de outros tempos afluíam-lhe em doses generosas e aquele amargo interior de se sentir forçado a fazer algo que já não lhe dava prazer ou sentido, pelo facto de repetir sistematicamente os mesmos procedimentos e as mesmas atitudes e de não poder ser totalmente sincero, de olhos nos olhos, para não ser segregado e incompreendido no seu meio, pelas suas decisões de querer fazer algo mais por si e consequentemente em prol de todos.

Na realidade queria ser livre, como uma criança grande! Queria sentir-se livre de enveredar por outros projectos ligados áquilo que fazia desde sempre, ou mesmo ir repescar sonhos antigos e experimentar, nem que fosse pelo prazer de fazer algo artístico que tinha abdicado na juventude e cujo talento tinha ficado escondido durante os anos transcorridos.

Seria isso que o atormentava ou a possibilidade de se ter enganado a si próprio durante alguns importantes anos da sua vida? De qualquer forma, hoje era o resultado desse caminho e do acumular desse desassossego.

Enquanto se manifestava toda essa agitação interior, os seus olhos divagaram pela janela do apartamento e viu um dia carregado de triste cinzento atormentado lavado em chuva abundante. Parecia que este ainda estava mais estranho e atormentado do que ele, mas isso não atenuou aquela angústia entalada no seu interior.

Em catadupa, como as cascatas de água que escorriam do céu, assim caíam na sua mente as questões filosóficas do sentimento de angústia e tormento que o acordaram nesse dia cinzento.

Talvez fosse só uma coincidência ou simplesmente a constatação de algo apercebido ao longo dos últimos tempos que não tinha sido ainda assimilado por si, para se manifestar num dia cinzento triste banhado em rios de chuva.

Não lhe apeteceu sair. E não saiu! A tormenta interna aprisionava-o em casa nesse dia de tempestade de Inverno enquanto desejava que o dia passásse e que o seguinte fosse azul e luminoso para iluminar os seus pensamentos.

Naquele dia tinha acordado atormentado. Não sabia porquê, era esse o sentimento do dia. Seria só o principal motivo para escrever uma história sobre um dia cinzento e chuvoso e aprender algo mais sobre si e sobre a vida e os estados do Ser Humano.
António Pereira

4 comentários:

Anónimo disse...

Tormentos, angústias,dias cinzentos,alegrias, contentamentos...dei conta que o Ser humano é um composto de tudo isto...uns dias é o elemento mais denso que sobe, outros dias o mais subtil...descobri que o importante é realmente " podar" o denso...alimentar não resolve, ele irá crescer e minar o nosso jardim subtil..."corro, brinco,respiro...deixo que a natureza me invada, percebo que ela é pura e forte, percebo que ela me renova, percebo enfim que ela é a "mãe", que sabe sempre o que é melhor para nós....
" Adorei " o texto, uma boa capacidade de expressão de sentimentos, estados ...quem sabe um futuro escritor...

Grande beijinho,
Ana Paulo

Susana disse...

Olá Professor,

Gostei muito deste texto, que acho que exprime muito bem aquilo que acontece à maioria das pessoas nos dias que correm.

Não é fácil mudar toda uma vida de constrangimentos, mas por vezes a tempestade que se abate sobre nós é tão forte que acaba por revelar o céu límpido que existe para lá da nossa visão condicionada. E aí surge o desejo imperioso de mudar.

Felizmente, há pessoas como o Professor, que trabalham para ajudar os outros a ver esse céu límpido e que contribuem para uma mudança positiva. :)

Etianette disse...

Esses dias são importantes na nossa vida. Ajudam-nos a resolver as nossas angústias e arrumá-las num local correcto do nosso inconsciente. Num outro dia...o alvorecer é de sol resplandecente, que nos ilumina e encaminha, enquanto seres dignos, genuínos, e merecedores, porque fizemos de tudo para que desse certo!

Pena disse...

Gostei do texto :) Só há dias cinzentos porque há dias de sol :)