sábado, 23 de janeiro de 2010

O iniciar de um dia



O despertador tocou à hora certa, com o seu pi-pi-pi-pi-pi peculiar. Mecanicamente, toquei na tecla de repetição para parar o seu som irritante e permitir-me aqueles minutos finais de descanso, antes do novo pi-pi-pi-pi-pi que me fará saltar da cama.

Finalmente, após um novo toque sonoro do despertador quadrado e preto, carreguei na tecla definitiva de abatimento do som e levantei-me. Dirigi-me para o aposento da higiene e como rotina de todos os dias, esvaziei a bexiga pressionada por líquidos.


Logo após, olhei-me ao espelho e observei os papos por baixo dos olhos, sinal de ter dormido pouco e de uma juventude trocada por uma idade mais madura. Peguei no copo de aço e enchi-o de água. Segurei na escova dos dentes e coloquei uma pequena linha de pasta sobre as cerdas, mas antes segurei na espátula/escova de lavar e limpar a língua. Deitei-a para fora da boca e primeiro passei a escovinha do fundo até à sua ponta, para de seguida virar para o lado da espátula e raspar em toda a extensão da língua, arrastando saliva e uma goma estranha (blargh!), para expulsá-la da espátula/escova, através da água da torneira e enxaguar a boca em bochechos de limpeza.

Esfreguei os dentes, escovando-os com a pasta de fora para dentro, de cima para baixo, sem esquecer algum dente asilado no fundo da boca. Bochecho de água, aqui e ali e  toda a boca ficou a brilhar e a alentar frescura.

Descansei os utensílios, limpos e secos no seu lugar de estacionamento e abri a torneira de água quente, enchendo o lavatório. Molhei a cara. Chocalhei a lata da espuma e com a pressão do dedo, projectei na ponta dos dedos da mão direita uma noz de espuma que passei pelo pescoço e partes laterais do rosto, queixo e maxilar superior.

As três lâminas gritavam ainda no lavatório “- Vamos a isto!” E lá foram embora os pequenos pêlos que encobriam a macieza do rosto.

Entrei para a banheira já com a água temperada do duche a cair, para banhar o corpo nesse prazer matinal da temperatura um pouco mais de morna e assim purificar a cabeça, o corpo e aliviar as tensões físicas e emocionais com o gel refrescante de menta, para terminar com o duche frio de baixo para cima que me acorda e revitaliza. Após lavar corpo e alma, seco-me com a toalha e saio da banheira. Volto a olhar para o espelho para colocar os cremes perlim-pimpim e ir na senda da procura da roupa que hei-de vestir. Reparo que estou a ficar atrasado! Oh céus, nem vai dar para comer alguma coisa. É sair e correr para o carro!

Lá consigo sair de casa, abrindo e fechando a porta com as quatro voltas no ferrolho, para ficar bem trancada e aventurar-me a descer as escadas de madeira do terceiro, ao rés do chão e saltar porta fora do prédio. Na rua penso se as "lagartas" do novo Feudo moderno, não me deixaram um bilhete pecuniário. Nesse momento, surge-me uma vontade de fazer um abaixo-assinado contra as novas Leis Feudais, redutoras da liberdade de ficar e circular dos habitantes desta cidade. Acho que lá no fundo de mim, existe um revolucionário adormecido!

Entro para o carro e sigo na caravana matinal, dos meio acordados, estimulados pela droga preta, para não serem tão zombies como são sem esse estimulante. Por entre o ar meio fresco, meio quente da manhã de um dia azul solarento, observo as apatias espelhadas nos rostos das rotinas matinais. Sinto que é bom de vez, em quando, sentir a manhã, mesmo para um bio nocturno como eu. É uma lufada de vitalidade e energia matinal brilhante!

No meio dessas observações e pensamentos, veio o terror de não encontrar lugar para o carro e atrasar-me ainda um pouco mais, além do que os lentos da manhã produziram.

Chego ao Largo do destino e o Parque para surpresa minha, está vazio a partir do segundo andar e assim consigo colocar o carro numa das muitas vagas. Saio e caminho em direcção do elevador e reparo que não dá para a superfície e lá vem o primeiro exercício da manhã, vários lances de escada que deixam o meu coração saltitante e activo. Atravesso a rua e entro no prédio em direcção ao elevador. Entro pela porta entreaberta da recepção e cumprimento com um: “-Bom dia! Sou o Alberto Mateus e venho para o Curso!”

Entro na sala. “-Bom dia! Desculpe o atraso. Sou o Alberto!" No seguimento sou metralhado pela pergunta sobre as minhas expectativas do que faço ali. "-Bem, no meu caso, não tenho alguma expectativa sobre o Curso, para poder aprender o máximo possível.” 

Na realidade, acabei de falar e pensei que além disso deveria ter dito que espero aprender o que o Curso se propõem ensinar: rotinas, organização de ideias para escrita de livros, de ficção, pesquisa, etc. Porque raios não disse! Talvez ainda esteja meio mal dormido, mas há que estar acordado para absorver o máximo. Por isso, concentração que agora temos o primeiro exercício! 

O engraçado é que este foi precisamente o tal exercício e mal eu sabia que iria um dia parar aqui, no espaço virtual, a ser observado, lido e comentado por diversas pessoas que poderão não gostar dele, ou pelo contrário, até gostarem muito desta Crónica de um início de dia igual a muitos outros.
António Pereira

1 comentários:

Pena disse...

Lol! Achei piada ao bio nocturno! acho que também sou, gosto da paz da noite... Também gosto de acordar cedo, gosto de sentir a energia do inicio do dia, dos primeiros minutos do dia! Gosto de dormir bem, umas 8 horas... e neste trio já deu para perceber que não são três coisas compatíveis para minha infelicidade! Com uns dias de sacrifício alternado de cada uma delas, la vai havendo tempo para tudo! :)