quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Às vezes é melhor deixar as coisas como eram


Às vezes seria melhor deixar as coisas como elas eram, nos casos em que alguém passa para um determinado patamar e muitas vezes acaba por desvirtuar a essência daquilo que motivou a galgar esse degrau.

Refiro-me a alunos que quando o eram, demonstravam todo o carinho e proximidade gerando muitas vezes laços de amizade, sendo pró-activos e sempre dispostos a ajudar, a participar e sempre envolvidos nas actividades, práticas e com um senso de missão e de humildade.


Acontece que em 30 anos de profissão com o Método DeRose, reparo num fenómeno que me deixa triste e desgastado e que ocorre com alguns alunos que depois de passarem a ser Instrutores perdem essa característica tão bonita e genuína da retribuição espontânea (pújá e guru-sêva), e tudo passa a ser uma dificuldade, tornam-se reactivos, arrogantes e começam subtilmente a afastar-se de quem os ensinou, o seu Monitor, da Escola onde aprenderam e muitas vezes do seu Mestre.


Nestes casos,  penso ser ideal essas pessoas ficarem somente como alunas, por que nessa categoria, são e continuam amigas, próximas, queridas e pró-activas, enquanto ao tornarem-se instrutoras, passam a ser o oposto e o único ânimo nesta situação é que ela também se verifica noutras profissões, o que torna por outro lado a coisa mais gravosa, visto estarmos a trabalhar num processo de auto-aperfeiçoamento do Ser Humano, visando um maior autoconhecimento e por essas mesmas razões maior a responsabilidade em corrigirmos este fenómeno.

Uma medida é o Instrutor Monitor do candidato não facilitar, não mimar, mas como na tradição ancestral da Filosofia Hindú, ser rigoroso e até colocar algumas dificuldades que afastarão quem não tenha a têmpera e ao mesmo tempo fortalecerão e aperfeiçoarão os que superarem essas provas.


Esta é uma medida não uma solução máxima, por que muitas vezes passado isso tudo, só com uma convivência mais próxima nos apercebemos de alguns vícios comportamentais que terão de ser reeducados por  nós educadores.

Infelizmente, penso que este fenómeno tem também a ver com o facto de usarmos a palavra mágica para denominar aquilo que ensinamos e nesse sentido ser Método DeRose ajudará bastante a corrigir este tipo de situações.


Esta é uma situação sentida por muitos colegas, mas pouco comunicada entre nós, por esse facto havia algum tempo que pretendia abordar aqui este assunto da área Pedagógica e desta forma estimular a implementação de medidas correctivas nas nossas Escolas do Método DeRose com a esperança de se obterem bons resultados.
António Pereira

6 comentários:

Susana disse...

Olá Professor,

É uma pena este tipo de situações acontecer. Nas áreas em que costumo trabalhar é uma constante, e bem gostaria de perceber os motivos. Parece que quando um dado é adquirido perde o valor da conquista. O tédio instala-se, a vontade de realizar esfuma-se. Será que as pessoas idealizam algo que depois não corresponde às suas expectativas?

No nosso grupo de teatro, tentamos explicar aos novos elementos de que forma funcionam as coisas, para que percebam o que têm pela frente. Mesmo assim, passado algum tempo, muitas pessoas se mostram arrogantes e optam pelo afastamento.

Infelizmente, também tenho chegado à conclusão de que às vezes é preciso ser-se mais rigoroso.

Se entretanto o Professor descobrir a fórmula mágica, espero que a partilhe...

Beijinhos com muitas saudades!

Prof. António Pereira disse...

Olá Susana,

Saudades vossas! Para a semana, a partir de 3ª vou até aí abaixo passar uns dias, quem sabe se dá para nos vermos.
Entretanto, este tipo de situação, aparece bastante na área artística de variados campos e penso que pode ser como bem dizes por criarem uma expectativa exagerada do que as espera em termos profissionais e também por não quererem trabalhar muito e esperarem que o sucesso e a realização pessoal "cai de repente do céu". Tudo implica trabalho, esforço, dedicação e paixão por aquilo que se gosta (este será o assunto de um outro post). Continuação de boas férias e até breve, aí ou aqui. Beijinhos

paula milani disse...

Emocionei-me um pouco ao ler o seu texto ontem. O fenómeno a que se refere é triste e intrigante.

O mimo por parte do Instrutor Monitor não ajuda muito, mas também acho que pode ser algo que já vem com a própria pessoa.

Começo a achar que na profissão de Instrutor do Método DeRose, as capacidades mais importantes são a doação, a entrega e o querer tranformar-se e adaptar-se constantemente ao grupo e ao superior hierarquico. E para isso é preciso humildade, amor à Filosofia que se pratica, auto-estima, saber ser livre e saber o que se quer.

Infelizmente, nem todos nós nascemos com essas características, apesar de termos todos as nossas qualidades.

Que os próximos tempos sejam especiais de forma positiva!!

Beijinhos
Paula Milani

Ana Ribeiro disse...

Olá Professor,

O ser humano é mesmo imperfeito. Há os que se apercebem disso e se tentam melhorar a cada dia.

Ao entrar nas escolas no Método DeRose o aluno é motivado a tornar-se instrutor. Por isso os que o tentam é porque estão realmente de acordo com o ensinamento. Acontece que como em todas as profissões existe o aprendizado, muitas vezes, na forma de um curso e depois existe o exercício da profissão. É nesse exercício que a pessoa se depara com as dificuldades. No meu caso pessoal estudar Eng. Informática até foi divertido e bem mais fácil que estudar Yôga. Ao chegar à rotina do dia a dia em que 90% é repetição é 10% é criatividade as coisas começam a mudar de feição. Quando nos deparamos com todas as dificuldades podemos ter a perseverança para ultrapassar tudo ou não.

Partilhando um pouco da minha observação da cultura sueca posso dizer que aqui os conflitos do dia a dia são minimizados por uma grande quantidade de regras que todos seguem. Por outro lado no ambiente profissional não existe o cinismo que observei em Portugal. As pessoas são encorajadas a partilhar a sua opinião mesmo que esta seja discordante. Isto torna os processos de decisão lentos porque a mesma só é tomada quando todos foram ouvidos e quando a decisão não incomoda ninguém. Ainda assim sendo um país com sensivelmente a mesma população que Portugal tem projecção mundial com marcas como Ericsson, IKEA, Oriflame, Volvo, Saab, Scania e etc. Por outro lado penso que dão mais importância ao bem comum e ao grupo.

No campo do Hip-Hop, por exemplo, emocionei-me bastante ao assistir a um espetáculo organizado por um grupo de Hip Hop chamado "The Bounce" num espaço semelhante ao Pavilhão Atlântico. Eles tinham mais ou menos a minha idade e começaram a dançar na mesma altura em que eu comecei também inserida num grupo com grande talento. Pergunto-me porque é que o meu grupo em Portugal não conseguiu fazer o mesmo que os The Bounce? Porque eles permaneceram juntos sempre com estabilidade, enquanto que no meu grupo alguns membros tentaram subir individualmente.

Quanto às amizades aquilo que observo pela minha própria experiência é que as pessoas estão sempre à espera que sejam os outros a contactarem. Se não ligar para os meus amigos quase nenhuns ligam. Se não os procurar não me procuram. É cansativo.

Voltando ao Método como nota final. Penso que não foi tempo perdido aquele que investiu na formação de instrutores mesmo que eles não tenham permanecido junto. No meu caso sou uma pessoa muito diferente do que era antes de ter praticado e estudado o Método. Se for conseguir cumprir a missão e passar em frente ainda não sei. Mesmo que não seja formalmente alguma coisa passarei em frente pelo convívio com as pessoas que fazem parte da minha vida.

Beijinho
Ana Ribeiro

Prof. António Pereira disse...

Olá Ana,

A sensação não é de perda de tempo, porque queiramos ou não mesmo quem se afasta acaba por ter aprendido alguma coisa.
Porém a sensação desgastante é a sensação de perda de alguém que era tão próximo e de "repente" afasta-se, depois de tanto investimento afectivo e de relação próxima que muitas vezes se transforma em amizade. Porque o deixar de ser instrutor eu percebo, nem toda a gente tem de gostar da mesma coisa ou ter talento para as mesmas profissões, mas o cortar os laços afectivos de amizade, companheirismo, proximidade, depois de tanta coisa, de tanto tempo, não me encaixa, quando geralmente vem embrulhado com atitudes de arrogância e de que sei fazer melhor, etc. E quando existiu abertura para se ouvir as opiniões como na Suécia, dentro de uma estrutura hierárquica que o aluno/instrutor respeita quando é aluno e ao passar a ser instrutor, vem a tal arrogância que acaba por desrespeitar a mesma hierarquia que antes respeitava.
Enfim, no meio disto tudo há esperança e penso que o caminho é ser mais rigoroso na selecção, como na antiguidade se fazia, mantendo o carinho e o afecto que caracterizam a nossa Egrégora, por que a amizade é intemporal e o mais importante, se a soubermos preservar e para isso é preciso que ambas a partes o desejem e eu quero sempre manter a amizade, por ser um sentimento muito importante para mim.
Beijinhos portugueses com saudades

Luísa Sargento disse...

:) beijinho