segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma nova perspectiva das relações


Vivemos em plena revolução social, em termos humanos e tecnológicos, com consequências na forma como trabalhamos e nos relacionamos social e afectivamente. Comportamentos e perspectivas de relacionamento que há poucos anos não imaginaríamos poderem vir a acontecer, estão hoje aí ou com grandes possibilidades de se concretizarem, pela evolução e abertura mental que a sociedade sofreu com a introdução das novas tecnologias e a consequência da sua utilização, gerou-se um maior acesso à informação e à globalização desta.

Neste sentido, a forma como se encara a relação afectiva de amor, está em fase de transformação, de uma situação romântica e às vezes meio dependente, para uma mais positiva de parceria e companherismo. 

Em relação a este tipo de relação afectiva, li um texto fabuloso do psiquiatra e escritor brasileiro, Dr. Flávio Gikovate, no blogue da nossa aluna Susana Sousa: http://derosepalace.blogspot.com



Por Dr. Flávio Gikovate*

"Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. As relações afetivas também estão a passar por profundas transformações e a revolucionar o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.


A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar a nossa outra metade para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher: ela abandona suas características para se amalgamar ao projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.


A palavra de ordem deste século é parceria.

Estamos a trocar o amor de necessidade pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão a perder o pavor de ficar sózinhas, aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Começam a perceber que se sentem fração, mas são inteiras.

O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.


O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de reciclar-se, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos a entrar na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo.

O egoísta não tem energia própria; ele alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem uma nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros, e não à união de duas metades. E só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar a sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sózinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sózinho não é vergonhoso. Pelo contrário, dá dignidade à pessoa.


As boas relações afetivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sózinho. Ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. O nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sózinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir a sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, torna-se menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.


O amor de duas pessoas inteiras é mais saudável. Nesse tipo de ligação há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.

Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém. Algumas vezes tem de aprender a perdoar-se a si mesmo...




SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África que quer dizer:

"EU RESPEITO-TE, EU VALORIZO-TE, ÉS IMPORTANTE PARA MIM".

Em resposta as pessoas dizem:

SHIKOBA que é

"ENTÃO EU EXISTO PARA TI"

* médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor brasileiro."

Para mim isto fez muito sentido e daí ter achado importante partilhar a sua leitura, gerar reflexões e conclusões sobre o seu conteúdo.
António Pereira

9 comentários:

paula milani disse...

De facto, o texto é muito completo e profundo e expõe vários pontos, dois deles muito importantes ao meu ver: a responsabilidade que temos sobre nós próprios e sobre a nossa liberdade e a responsabilidade que temos em estar bem para doar coisas boas às pessoas que amamos.

O que me faz concluir mais uma vez que, uma das formas mais eficientes de gerar felicidade e realização é através da autosuficiência e da escolha diária do próprio caminho.

Agora só resta saber como fazemos isso =)

Um abraço grande,
Paula Milani

Anónimo disse...

Olá professor! Não podia haver palavras mais certas! Engraçado é que precisamente agora são estas as palavras que eu precisava de ler.
Obrigada :)
Um abraço,
Sandra Rodrigues.

pedro disse...

Obrigado professor por transmitir a sua sabedoria e partilhar a sabedoria dos outros. Este texto está simplesmente genial :)
Um forte Abraço

Veronica Electronica disse...

Obrigada, António! Beijinhos!

Javier Alemanno disse...

Gracias Profesor!

Este texto es realmente muy bueno. Le pone palabras a una forma de relacionarnos novedosa y, sin embargo, muy antigua. Qué suerte encontrar cada vez más gente que sienta de esta manera.

Saludos desde Buenos Aires!
Javier Alemanno.

Etianette disse...

Lindo Professor!
Beijinhos
Eti

mariana.abrunhosa disse...

Olá professor!
Ainda hoje olhava pela janela, os sobreiros e medronheiros da Serra e, um pensamento surgiu: "Não há pessoas iguais, tal como como não existem árvores iguais. É um longo e solitário caminho, o de uma árvore. Sua existência é tão importante como a do Sol,da Terra, da Lua, sem a qual, nós humanos, não sobreviveríamos. Só elas purificam nosso prána, e nós ao assimilá-lo, absorvemos parte delas, parte se suas caracteristicas,somos um pouco de árvore, solitários..."
Ah ah ah!!
Beijos

Susana disse...

SAWABONA, Professor!

maurobindo disse...

Obrigado pela partilha :)
Um forte abraço!