segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Livros que nos tocam


Existem pequenos livros em número de páginas, mas que são tão grandes por aquilo que nos tocam lá no fundo.

Deles extraímos partes de nós em cada página que lemos, relatando partes da nossa vida, exposta de forma tão intensa que nos deixa meio enfeitiçados, meio atordoados com tanta identificação com uma certa quantidade de frases e textos que vão ao nosso âmago.

Acabei de ler um desses livros No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares, o qual logo nas "orelhas" da capa tem uma frase arrasadora: 

"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer."

Depois dentro dele tem mais coisas como:

"Mesmo a desordem necessita de uma ordem que lhe dê um sentido para que não seja apenas leviandade."


E, sobre as regras de funcionamento do mundo árabe:

"A regra principal é: nada tem uma solução definitiva e não há nada que não tenha algum tipo de solução provisória. É um pouco como dizem da vida os que sabem viver, adaptando-se."

"Não há problema sem solução. E, quando não há solução para o problema, deixa de haver problema e resta só a solução..."

Nunca estive no deserto, mas é um dos locais onde gostava de um dia poder ir e estar durante pelo menos algumas horas. Sobre essa região inóspita o livro diz-nos o seguinte:

"Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto."


Muito se fala hoje sem se dizer nada, como o sketch dos Gato Fedorento retrata e sobre isso este livro fala muito:

"Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos."

Sobre a forma e o modo de olharmos as coisas e as pessoas:

"Aprendi em que é preciso dar tempo aos outros para olharem."

"... há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa."

"- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar."


Sobre nós portugueses e a nossa atracção por andar por aí, pelo mundo fora:

"Somos portugueses: há quinhentos anos que andamos por toda a parte e conseguimos sempre voltar a casa."

O silêncio é algo tão mal entendido hoje em dia e desconfortável para a maior parte das pessoas, excepto para algumas que sabem que ele diz mais do que parece. Para muita gente é sinal de:

"Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento."


Porém, o silêncio é poderoso naquilo que nos informa sobre os outros e sobre a sociedade actual cheia de ruído:

"A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio."

"Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, "leves", disponíveis, sensíveis e interessantes. E, por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem uns dias de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão."

E temos muitas outras coisas sobre a nossa forma de estar e ser connosco e com os outros, com quem partilhamos a intimidade, nem que seja por um determinado tempo que nos pareceu Eterno.
António Pereira

2 comentários:

sandra disse...

Olá professor! Obrigada por me mostrar que o silêncio pode ser valorizado! Pois também a esse respeito existe preconceito! O silêncio às vezes é realmente um vazio ( de ideias, de sentimentos...)mas também pode ser um mundo cheio de vida!
Eu o saúdo :D
Sandra

Filoxera disse...

Também adorei este livro.