sexta-feira, 4 de março de 2011

Boas impressões vêm de muito sítios


Independente de partilharmos das ideias ou de conhecermos ou não uma pessoa, devemos ter sempre a abertura de espírito para ouvir e observar o que essa pessoa nos diz e transmite.

Assim, hoje li uma entrevista dada ao jornal Público, em 03.03.2011, a Fernando Sousa, por Ingrid Betancourt, política e escritora que esteve refém 2321 dias na Colômbia, durante os quais foi privada de comida, de tratamentos, de intimidade, acorrentada, humilhada e obrigada a caminhadas até os pés sangrarem, tendo chegado a desejar morrer. 

Numa breve passagem por Lisboa, veio divulgar o livro O Silêncio Tem Um Fim, publicado agora em Portugal pela editora Objectiva, o qual é relato do preço que pagou durante o período de cativeiro.

Como a sua entrevista, tem algumas ideias interessantes, resolvi transcrever aqui alguns extractos que achei pertinentes, relativamente a valores e princípios que defendemos: a capacidade de cada um mudar e  poder ser aquilo que está no seu íntimo, seja mais cedo ou mais tarde; e de ser cada vez melhor pessoa.

"Disse durante o seu cativeiro que no fim quereria ser uma mulher diferente. É?
Muito. Muito diferente.

Em que é que mudou?
Na consciência de que se pode ser melhor. Vivemos numa sociedade que nos formata. Na selva tomei consciência de uma realidade muito diferente: uma pessoa não tem que ser o que não quiser ser. E isso implica um grande esforço, porque o que não se quer ser é algo que está lá muito em cima, são metas muito ambiciosas, implica uma pessoa enfrentar-se a si mesma e transformar-se. Quando digo que sou uma mulher diferente, isso é mesmo verdade, não tanto por considerar que consegui as mudanças que quis, mas porque me tornei consciente de que me fui transformando e que cada vez o consigo melhor. 

E como se processou essa transformação?
Através da dor. É assim que se dá esse despertar da consciência. É ela que permite veres-te de outro modo. 

Escrever este livro ajudou-a?
Foi parte dela, sim, sem dúvida. 

Uma forma de catarse...
Não foi pensado como tal, mas acabou por ajudar.

Obrigando-a a recordar?
Tive que voltar a mergulhar nesses momentos, com tudo o que estava a sentir, os odores, a luz ou a falta dela, as pessoas à volta, com tudo o que estava a pensar. Sensações muitos tácteis, físicas, emocionais e também espirituais. Houve fases em que disse: "Não, disto não me quero lembrar." Porque não gostei de como me portei, reagi, pensei. Mas concluí que fora o que se passou e, então, quis deter-me nesses instantes, reflectir e perguntar-me o que é que se tinha passado.

E aguentou essa tensão.Escrevi este livro ora a chorar, ora a rir. Olhe: foi uma espécie de alpinismo espiritual.

Escreveu que queria aprender para não sentir o tempo inútil. O que é que aprendeu na selva?
Uuuuuuuuuuui!! Um mestrado, um doutoramento sobre a condição humana!

E de que forma pode usar isso agora a favor de outras pessoas?
É o que estou a tentar fazer. Uma das coisas é dizer às pessoas que podemos ser diferentes. Essa descoberta para mim foi essencial. Não estamos condenados a ser o que somos. Podemos ser seres completamente diferentes. Custa? Sim. É muito difícil? Sim. São processos que podem durar anos? Também. Mas é uma conquista diária. Todos os dias nos confrontamos com a nossa pequenez, o nosso egoísmo, a nossa mesquinhez, a nossa falta de compaixão. E todos os dias, à noite, podemos fazer essa revisão."

A caminhada para o Autoconhecimento, é árdua e estreita, mas vale a pena desbravar esses terrenos difíceis com que diariamente nos confrontamos, procurando ser cada vez melhores Seres Humanos e mais competentes em tudo aquilo em que estamos envolvidos. Vale a pena!
António Pereira

2 comentários:

sandra disse...

Bom dia Professor!

Leio estas palavras e olho pela janela refletindo um pouco. Vejo árvores, céu, casas... É neste espaço que eu posso agir. Afinal a mudança começa sempre em nós proprios!
Infelizmente, parece que a dor é necessária para aprendermos e evoluir. Necessária para valorizar o seu oposto, a dar importância às pequenas coisas. Há algum tempo comentei com uma amiga minha que é necessário sofrermos para podermos compreender as pessoas. Pois as nossas dores, tristezas ou frustrações são comuns aos demais. A resposta de minha amiga foi muito interessante: " Também é preciso sentir prazer e alegria para isso". Sim, para realmente aprender é preciso passar por isso tudo. É natural a dor e a tristeza, mas também é natural o prazer e alegria! Chama-se a isto: VIVER!!!

Abraços grandes desta linda e maravilhosa terra diretamente para a capital!

Sandra

David F disse...

Bom dia Professor.

Que bom ler palavras de alguem "exterior", que vao tao de encontro a Nossa Cultura.

Um abraço agradecido.

Ps: Desculpem-me a falta de acentuaçao, nao consigo utiliza-la neste dispositivo.