segunda-feira, 21 de março de 2011

Para reflectir com a mente aberta

Hoje a minha amiga Fernanda Freitas, colocou no Facebook, um texto sobre a Geração à Rasca, atribuído ao escritor Mia Couto, o qual deve ser lido com a mente aberta e levar a uma profunda reflexão, devido à importância do seu conteúdo e à forma como ele é tão bem explanado.

Aqui deixo o referido texto:

"Escritas D'outros : Mia Couto

Geração à Rasca - A Nossa Culpa
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem  Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde  uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a  informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem  são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim."

Um bom exemplo conceitual do funcionamento do karma. Uma boa reflexão!
António Pereira

5 comentários:

David disse...

Boa noite Professor,
o texto está deveras brilhante.

No entanto um pequeno pormenor, já tinha lido algures que o texto não seria de Mia Couto, e ao pesquisar encontrei esta notícia do Correio da Manhã:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/ultima-hora/agualusa-denuncia-falso-texto-de-mia-couto

Obrigado por partilhar, de outra forma não teria lido este excelente texto.
Abraço.

paula milani disse...

Numa só palavra, ADOREI!
Obrigada Professor.

Prof. António Pereira disse...

David,
Obrigado pela informação. Já me tinha constado que este texto poderia não ser do Mia Couto, mas a tua informação com o link da notícia do Correio de Manhã, esclarece de vez.
Abraços,
António Pereira

Pena disse...

Tenho de dizer que sempre que leio coisas comentando como as gerações novas agora têm tudo começo a pensar no Velho do Restelo... Nós não estamos mal porque estas gerações falharam, o que falha é o sistema político que deixou esta crise que dura há uns 12 anos em Portugal, a mais actual (2008) começou na irresponsabilidade do sistema de credito imobiliário nos EUA e essa bolha explodiu no sistema fictício em que toda a banca vive e como a banca paga muitas campanhas políticas, os políticos o que têm andado a fazer é salvar as bancas do mundo e quem a paga somos nós! Aponto como defeito muito maior o desinteresse das novas e não tão novas gerações pela política que acaba por permitir termos os políticos que temos, quando há bem pouco tempo uma Senhora líder do PSD se candidatou e que nos disse algo mais próximo da verdade ninguém lhe ligou e muitos acharam que o atual PM é que era porque ele não tinha ideias de cortes na despesa e outras regalias, porque afinal, a crise era psicológica! Uma grande lição da historia política do mundo é a que uma frase conhecida comenta como: O grande mal não vem quando o mal faz algo mas sim quando o bem não faz nada para o impedir. Foi assim que por exemplo o Hitler chegou a líder de um pais ganhando as eleições. Á rasca está um país inteiro aqui, e outros pior que nós infelizmente para eles, não são os jovens, somos todos!

A política é das coisas que mais vai influenciar a nossa vida, os tratamentos que teremos no Hospital, todas as coisas que pagamos e não pagamos e tantas coisas mais mas mesmo assim a sociedade vive como numa ressaca do 25 Abril apartir da qual a política é coisa de outros e não vale a pena ter chatices por isso que outro há-de fazer o que for preciso. Vejo nisso com orgulho este movimento "Geração à rasca" a fazer algo, a terem tirado o rabo do sofá e unir-se que é muito do que estamos a precisar e não se via há muito, a fazer algo, podia ser melhor, pior, pode ser sempre mas fizeram algo e uniram-se e disseram com isso que quando for preciso de novo unir força para lutar pelo que precisarmos contra quem, contra as pessoas decidir, que não ficaram em casa a jogar Playstation, mandaram sms com palavras com K e abraviaturas uns aos outros para se juntarem e fizeram uso do Facebook como poder de comunicação que tem e mostraram que ao contrario do que muitos pensam as redes sociais não são para engate ou só perder tempo com tretas, são um meio de comunicação de cada vez mais largo espectro que como tudo na vida uns usam bem e outros nem tanto.

Concordo sim que mimos a mais estragam as pessoas, não as faz amadurecer e ser independentes mas isso não foi já o que disseram os pais de todas as gerações anteriores, este comentário de que as gerações novas foram demasiado mimadas já deve vir desde o Autralopitécus! Erros de educação há e muitos mas parece que continuará a haver e antes houve também, por isso quando leio textos com esse teor lá me vêm a cabeça o Velho do Restelo...

Prof. António Pereira disse...

Pedro,
Obrigado pelo teu comentário. Como o título do post diz, este texto deve ser lido com a mente aberta, sem pensar nos "Velhos do Restelo" ou nos jovens sem tino.
Se o texto aponta o dedo é precisamente à geração dos pais e também não generaliza que todos os jovens são assim. Penso que se tem de ler este texto, sem paradigmas de julgamento, mas com a mente aberta. No mínimo, é uma pedrada no charco, na atitude de letargia e comodismo generalizados que está instalado na maioria da sociedade portuguesa.
Por acaso, no Expresso desta semana, na revista Actual, vem um artigo sobre um opúsculo/livro denominado "Indignai-vos", escrito por um resistente francês de 93 anos, de nome Stéphane Hessel e com prefácio de Mário Soares. É um apelo e um grito de alarme para os europeus acordarem e saberem encontrar soluções para resolver a situação actual.
Um abraço e espero ver-te em breve,
António Pereira