quinta-feira, 16 de junho de 2016

A RESPIRAÇÃO E OS SENTIDOS


Na tradição filosófica oriental, particularmente na indiana, utiliza-se muito contos, histórias, parábolas e metáforas para ensinar, educar e ilustrar situações que se pretenda realçar.

Um dos contos mais antigos e fascinantes da tradição indiana e do Yoga, é acerca do papel crucial que a respiração desempenha no bom funcionamento do nosso organismo e na sua manutenção viva. Narra essa história que um dia, os sentidos estavam em grande discussão sobre qual deles seria o melhor e o mais importante.

No seguimento foram ter com Bráhma (entidade principal da Trindade hindu) e perguntaram-lhe: «Qual de nós é o mais distinto e perfeito?».

Bráhma respondeu-lhes: «O mais distinto e perfeito será aquele que ao se afastar, o corpo piore no seu funcionamento!».

Na sequência a fala (a língua) afastou-se durante um ano, após o qual voltou e perguntou aos outros: «Como conseguiram viver sem mim?». Ao que os outros responderam: «Vivemos como os mudos. Não falámos com a língua, mas respirámos com o fôlego, vimos com os olhos, ouvimos com os ouvidos, conhecemos com a mente e gerámos com o sémen. Vivemos desta forma!». Pelo que a língua voltou ao seu lugar.

Então a visão (os olhos) decidiu também afastar-se por um ano, ao fim do qual voltou a ter com os outros sentidos e perguntou-lhes: «Como viveram sem nós?» E eles responderam: «Como cegos, sem ver com os olhos, mas respirando com alento, falámos com a língua, ouvimos com os ouvidos, conhecemos com a mente e gerámos com o sémen. Assim vivemos!». Após isto os olhos retornaram para o seu lugar.

A audição (os ouvidos) de seguida foi para longe durante um ano e depois voltou para junto dos outros e perguntou: «Como puderam viver sem nós?». Ao que os outros responderam: «Como os surdos, sem ouvir com os ouvidos, mas respirando com alento, falámos com a língua, vimos com os olhos, conhecemos com a mente e gerámos com o sémen. Assim vivemos». Então os ouvidos retornaram ao seu lugar.

A seguir foi a mente que se afastou por um ano, ao fim do qual voltou e perguntou: «Como viveram sem mim?». A resposta dos outros foi: «Vivemos como os loucos: não conhecendo com a mente, mas respirámos com fôlego, vimos com os olhos, ouvimos com os ouvidos e gerámos com o sémen. Foi assim que vivemos». Logo a mente retornou ao seu lugar.

No seguimento o sémen afastou-se durante um ano, ao fim do qual voltou e perguntou: «Como conseguiram viver sem mim?». Responderam-lhe: «Como os impotentes: não gerámos com o sémen, mas respirámos com o alento, vimos com os olhos, ouvimos com os ouvidos e conhecemos com a mente. Desta forma, vivemos». Pelo que o sémen voltou para o seu lugar.

Finalmente chegou a vez da respiração. Quando se afastou, rompeu os outros sentidos, como um robusto e dinâmico cavalo do país de Sindhu que tivesse partido as cavilhas, às quais estivesse atrelado. Logo os outros sentidos gritaram: «Não partais, Senhora! Não conseguiremos viver sem vós!»
Esta simples lenda demonstra a atitude filosófica, de como os antigos yoguis abordaram a importância crucial da respiração. Por conseguinte temos de concluir que dependemos particularmente do acto de respirar para vivermos.

Respiramos por dia aproximadamente 25.000 vezes, levando aos pulmões cerca de 10.000 litros de ar, dos quais os pulmões absorvem, entre 450 a 500 litros de dióxido de carbono. Pela respiração processamos a oxigenação do sangue, o qual fornecerá às células do organismo o oxigénio necessário para o seu bom funcionamento.

A respiração é tão importante para o Yoga que os antigos sábios desenvolveram, pesquisaram e sistematizaram um complexo e perfeito sistema de técnicas respiratórias, o pránáyáma. Em termos genéricos, o pránáyáma, é a técnica de expansão da bio-energia (o Prána, energia de origem solar) por meio de exercícios respiratórios que produzem resultados diversos no corpo, mente e emoções, devido ao seu impacto sobre o sistema nervoso simpático e parassimpático.

É particularmente a consciência sobre o acto de respirar que fará a principal diferença, aliada a uma boa execução técnica dos exercícios respiratórios, os quais devem ser aprendidos junto de um instrutor formado e certificado por um profissional experiente ou entidade credível.

Para terminar não se esqueça de respirar pelo nariz, de forma profunda, lenta, silenciosa e consciente. Respire profundamente e aumente a lucidez e concentração!

António Pereira

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